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Entrada Diario 02

Viajar na Ásia depois dos 50

C

FEVEREIRO 2026

heguei pela primeira vez à Ásia sozinho, quando tinha pouco mais de vinte anos.

Na altura, não procurava nada de particularmente profundo. Como tantas outras pessoas, queria simplesmente conhecer o mundo para lá da Europa. O que não sabia era que a Ásia se iria transformar, lentamente, numa segunda casa — um lugar ao qual continuaria a regressar durante mais de vinte anos.

Naqueles tempos, viajar era diferente. Havia menos smartphones, menos avaliações online e menos pessoas a documentar cada refeição e cada nascer do sol. Viajávamos com guias de viagem dobrados dentro da mochila, mapas de papel, curiosidade e uma certa vontade de nos perdermos pelo caminho.

E, sinceramente, acho que isso foi uma das maiores dádivas.

Porque viajar sozinho ensina-nos algo muito depressa: o mundo torna-se muito mais acessível quando deixamos de tentar controlar todos os detalhes.

Ao longo dos anos viajei pela China, Índia, Laos, Indonésia, Vietname, Japão, Ásia Central e muitos outros lugares. Algumas vezes sozinho, outras acompanhado por amigos, outras ainda a acompanhar pequenos grupos. Mas, mesmo hoje, depois de décadas a viajar, a sensação de que mais gosto continua a ser a de chegar sozinho a um lugar desconhecido.

Uma estação de comboios na China.
Uma estrada de montanha no Quirguistão.
Uma casa de chá no Japão.
Um ferry a chegar a uma pequena ilha da Indonésia.

Essa sensação nunca desaparece.

O que muda depois dos 50 não é a vontade de viajar, mas sim o ritmo.

Passamos a ter menos interesse em correr de país em país e mais vontade de os compreender verdadeiramente. Valorizamos mais o conforto, mas também a autenticidade. Já não precisamos de visitar dez destinos em duas semanas. Preferimos menos lugares, conversas mais longas e manhãs mais tranquilas.

E a Ásia é perfeita para esse tipo de viagem.

Muitas pessoas com mais de 50 anos hesitam porque imaginam a Ásia como um destino difícil, caótico ou cansativo. Mas a realidade é muitas vezes o oposto. Países como o Japão, o Vietname ou o Sri Lanka podem revelar-se incrivelmente acolhedores assim que nos adaptamos a um ritmo de vida diferente.

A verdade é que viajar sozinho mais tarde na vida pode até ser mais fácil.

Conhecemo-nos melhor. Somos menos influenciados por tendências. Viajamos porque queremos genuinamente estar num determinado lugar, não porque toda a gente está a ir para lá.

E talvez o mais importante: viajar sozinho depois dos 50 traz um tipo diferente de liberdade.

Deixamos de tentar provar alguma coisa.

Limitamo-nos a viajar.

Algumas manhãs isso significa acordar cedo para fotografar um mercado ainda vazio.

Noutros dias significa passar uma tarde inteira a beber chá e a ver a chuva cair em silêncio.

Quanto mais velho fico, mais acredito que viajar não tem verdadeiramente a ver com distância.

Tem a ver com atenção.

Com permanecer curioso.

Com nos permitirmos continuar a ser surpreendidos pelo mundo.

E talvez seja por isso que continuo a regressar à Ásia depois de todos estes anos.

Porque, ainda hoje, continua a conseguir surpreender-me.

O que muda depois dos 50 nao e a vontade de viajar, e o ritmo. "

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Ricardo

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